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Cultura de estupro: até nas salas de aula?

Monday, April 15, 2013 - 14:13

Ontem fui pego de surpresa ao saber que minha prima de 16 anos, sempre muito tranquila e calma, havia sido suspensa da escola. O motivo: numa discussão em sala de aula sobre o estupro ocorrido contra uma turista dentro de uma van no Rio de Janeiro, ela se posicionou contrária ao professor que, após fazer piadas do tipo “Ela foi peso pesado! Aguentou três brutamontes!”, argumentou que a investigação para ser justa deveria considerar a roupa que a vítima vestia para ver se ela não “estava pedindo”. Minha prima disse que aquele era um comentário machista idiota.

E foi convidada a sair de sala.

O infeliz comentário do professor em sala de aula já seria preocupante pelo simples fato dele ser formador de conhecimento para centenas de jovens mentes em aprendizado. No entanto, o que mais preocupa é saber que a visão dele não é isolada, mas faz parte de uma forma ainda muito enraizada em nossa sociedade de modo geral: sugerir que a vítima é parcialmente ou totalmente culpada pelo estupro. O perigo desse pensamento machista é o seu efeito de revitimização, ou seja, encorajar a culparem a vítima e responsabilizá-la pelo estupro, ao invés de culparem o estuprador pelo seu ato criminoso. O ponto é: a vítima nunca é culpada pelo estupro, em hipótese alguma.

Embora não tenha sido esse o pensamento predominante no caso do estupro da estrangeira dentro da van, há outras formas igualmente perversas ao lidar com o episódio atreladas à maneira de se pensar a cidade e a segurança pública.

O primeiro diz respeito ao modo que alguns meios de comunicação repercutiram o caso, manchetes como “Estupro: imagem do Rio afetada” e “Ataque a turistas americanos dentro de van é revés em bom momento vivido pela cidade”. O estupro de uma mulher não é meramente um "revés" para a cidade, mas um ato de violência brutal e inadmissível que afeta antes de qualquer coisa a vida da mulher violentada. A preocupação central não deveria ser com a repercussão e impacto negativos sobre a imagem e turismo da cidade, mas sim com a segurança de todas as mulheres ao garantir seu direito de ir e vir dentro do espaço público, antes de tudo. Fica evidente a lógica predominante de se pensar o Rio de Janeiro enquanto cidade-mercadoria, num estágio tão extremo que até o estupro de uma mulher é visto apenas como um problema que prejudica a imagem do "produto" (o Rio de Janeiro) e sua "venda" (a atração de turistas).

Declarações oficiais do governo afirmaram recentemente que o estupro da jovem americana numa van foi uma “atrocidade”, mas que a violência contra a mulher não é uma prática comum no Brasil nem no Rio. De fato, constatar que o estupro é uma atrocidade é o mínimo de sensatez esperado, contudo, afirmar que as práticas violentas contra as mulheres brasileiras e cariocas são incomuns é perigosamente ilusório. A verdade é que é muito mais comum do que gostaríamos de admitir. De acordo com o Instituto de Segurança Pública, apenas em 2012 foram registrados mais de 6 mil casos de estupro apenas no Rio de Janeiro, isso representa uma média de 16 estupros por dia. Embora o índice represente também uma vitória do crescimento do número de pessoas que passam a confiar cada vez mais na denúncia desse tipo de crime, ainda assim, seis mil mulheres violentadas dentro do Rio de Janeiro será sempre uma derrota social.

Para o poder público e parte da mídia, o problema foi o estupro ter ocorrido com uma turista num dos cartões postais da cidade, Copacabana, o que denigre a imagem da cidade internacionalmente. O perigo de não se reconhecer a violência estrutural contra a mulher é tornar invisíveis os estupros diários cometidos contra a parcela mais exposta da população carioca: mulheres, moradoras de áreas periféricas e de baixa renda. De alguma forma, as violências vivenciadas todos os dias contra essas mulheres não merecem a mesma atenção?

Não querer reconhecer a dura realidade da cultura de estupro em que o Rio está imerso em prol de salvaguardar a “boa imagem da cidade-produto”, é perpetuar a própria violência contra as mulheres ao negligenciar que as violações ocorrem e que deveriam, portanto, serem combatidas efetivamente. Negar a violência contra a mulher não faz com que ela deixe de existir, apenas permite que ela se reproduza em silêncios, lágrimas e traumas calados sem a espetacularização da mídia.

Há muito que ser feito ainda. Um bom primeiro passo é reconhecer e convidar duas alunas muito mais perigosas e problemáticas para fora da sala de aula carioca do que a minha prima: a cultura do estupro e a lógica da cidade-mercadoria do Rio de Janeiro.

Convidar não. Expulsar.

Matheus Bizarria