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Nas águas da participação cidadã
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Sidnéia Gonçalves, 45 anos, já assistiu as águas destruírem tudo o que tinha dentro de casa algumas vezes. Ela mora em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, em uma rua próxima ao Rio Sarapuí.

Em outubro de 2007, um temporal provocou mais uma inundação, deixando um rastro de três mortes e 1476 pessoas desabrigadas na região.

Desta vez, seu marido e seu enteado conseguiram salvar alguns móveis e eletrodomésticos, pagos a prestação.

Acostumada a ver a água subir a mais de um metro de altura, a família desenvolveu uma estratégia em caso de chuva forte: as crianças são mandadas para a casa da tia e os móveis e eletrodomésticos são suspensos em uma estrutura de ferro.

“Já tem quatro anos que passo por isso, é só acabar de pagar a prestação que a água estraga tudo”, conta.

Dona de casa, ela faz bicos com serviços domésticos para completar a renda da família, composta por ela, o marido, que é assalariado, três filhas e o enteado de 20 anos. enchente.jpg

Todos os dias, ela acorda às seis da manhã para dar conta dos bicos, como a lavagem de roupas de pessoas da vizinhança, e para aprontar as crianças para a escola.

Suas filhas freqüentam as atividades que a Casa da Cultura da Baixada realiza ali perto, uma organização parceira da ActionAid, desde aulas com as explicadoras, pessoas adultas que orientam os estudos de crianças com dificuldades na escola, até práticas culturais e esportivas.

Além de desenvolver atividades sócio-educativas para as crianças, a Casa da Cultura da Baixada apóia a articulação dos próprios moradores para reivindicar a infra-estrutura urbana básica da Prefeitura e dos governos.

Após décadas de luta de seus moradores organizados, na qual se destaca o papel do Conselho de Entidades Populares de São João de Meriti (ABM), uma instituição parceira da Casa da Cultura, a Baixada Fluminense receberá grandes intervenções em sua infra-estrutura urbana.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)  prevê, entre outras obras, a recuperação da bacia hidrográfica da região, o que significa a remoção das famílias que vivem às margens do Rio Sarapuí, e o aterramento de alguns de seus afluentes.

As obras que já foram iniciadas no Rio Sarapuí e as que estão prestes a serem feitas podem estar criando novos riscos para a população e aumentando ainda mais sua vulnerabilidade. Quem vive próximo aos canais afluentes do rio, como está preocupado com o aterramento que será feito, o que poderia comprometer a estabilidade do terreno e, consequentemente, das moradias.

Para avaliar o andamento do projeto e suas conseqüências para os moradores, a ABM tem organizado reuniões periódicas com a presença de lideranças, moradores e representantes dos órgãos públicos responsáveis pela execução do projeto. Esse monitoramento da população é a forma de assegurar que o projeto não seja mais uma promessa não cumprida.

“O papel da Casa da Cultura é articular as demandas da comunidade no que diz respeito aos serviços oferecidos, apontando as responsabilidades e acompanhando as ações do poder público”, resume Leila Soares, da gerência de Raça e Gênero da Casa da Cultura.

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