
Aprendendo a pescar e a se organizar
Angela Maria dos Santos, tem 31 anos, é uma das mulheres cuja vida foi transformada a partir da organização estimulada pelo Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Pescadoras de Alagoas, organização parceira da ActionAid. Ela vive com seus 3 filhos em uma pequena casa do povoado de Retiro, no município de Piaçabuçu, em Alagoas.
A fome e o medo do marido violento foram os principais problemas na vida dessa pescadora durante anos, situação que só conseguiu superar com a solidariedade de outras mulheres.
“Deixava meus filhos dormindo à noite e ia pescar na beira do rio. Não tinha dinheiro para comprar os instrumentos da pesca ou para pegar um barquinho, usava um pedaço de garrafa PET. Às vezes vendia o peixe para comprar farinha, e, às vezes, era tão pouco, nem dava para vender e a gente mesmo comia”, conta.
Ela chegou a pescar grávida e de resguardo para não passar fome pois o marido não lhe dava dinheiro para comprar comida, nem para as crianças. Além da ajuda da mãe e de uma tia, que vivia em Aracaju e mandava alimentos para a família, Ângela contou com o apoio de Zélia XXX, liderança do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Pescadoras de Alagoas na comunidade.
“Ela sempre insistia para ela se juntar às pescadoras do movimento, para participar das reuniões, me organizar. Mas eu tinha medo de dinheiro para pagar o INSS e Zélia dizia que não me preocupasse, quando chegasse a hora de pagar o INSS elas davam um jeito de se unir e fazer uma rifa”, lembra.
Com a morte prematura do marido violento, ela perdeu o medo de freqüentar os grupos de mulheres e começou a participar do Movimento. Passou a pescar mais junto com as outras mulheres e pode comprar seus instrumentos de pesca. Quando chegou a época de pagar o INSS ela tinha o dinheiro e a rifa não foi necessária.
Com as informações corretas sobre como acessar os seus direitos, Ângela conseguiu acessar benefícios como o bolsa família para seus filhos, além da pensão do falecido marido. A casa em que mora hoje, sua mãe conseguiu em um programa de habitação do governo.
Para as mulheres trabalhadoras rurais e pescadoras de Alagoas, organização e união podem fazer grande diferença quando se trata de dignidade. Na região, devido à falta de empregos, é muito comum que as mulheres e as crianças se encontrem sós na mais absoluta miséria, enquanto os maridos ou familiares migram para trabalhar em outras cidades e estados.
O objetivo do Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais e Pescadoras de Alagoas é fazer com que essas “viúvas de marido vivo” possam produzir os próprios alimentos e gerar renda. Para isso, a principal estratégia é a organização e o apoio mútuo. |