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Histórias de Mudança Mulheres e Meninas

8M: conheça Bárbara e as gerações de mulheres que mantém as florestas de babaçu em pé

Data: 08/03/2026 Por: ActionAid

A pequena Bianca, de 10 anos, ainda tem um longo caminho a trilhar até a vida adulta, mas já tem a melhor guia possível: sua mãe, Bárbara. As duas vivem no interior do Maranhão, e escrevem juntas uma história de força, autonomia feminina e transformação não apenas da realidade de uma família, mas de toda uma comunidade.

Bárbara, que hoje tem 30 anos, cresceu vendo as mulheres de sua região saírem de casa para manter viva a tradição do coco babaçu e garantir o sustento de suas famílias. Por muito tempo, ela observava de longe, mas o desejo de ocupar espaços de decisão falou mais alto. O divisor de águas foi uma viagem a São Luís, onde viu outras quebradeiras sentadas à mesa com governantes, falando com propriedade sobre suas vidas e o território.

Aquele momento despertou nela a vontade de também ser uma voz ativa. Hoje, ela é presidente da Associação de Moradores, faz parte da gerência do grupo de produção de licor e geleia, é tesoureira da Associação de Mulheres Quebradeiras de Coco do município e quebradeira de coco com muito orgulho. E apesar de ainda lidar com o machismo nos ambientes que frequenta, ela mantém a cabeça erguida.

Hoje Bárbara é uma liderança em sua comunidade e se esforça para que as outras mulheres tenham o mesmo direito de ocupar esses espaços / Foto: ActionAid
“Pela função que eu exerço aqui na comunidade, eu sinto um pouco de machismo da parte dos homens por eu ser mulher, presidente da associação e ter pensamentos um pouco diferentes, como a militância da preservação dos babaçuais. [Mas] me sinto bem empoderada. Não tem mais aquele negócio de primeiro o homem. Hoje as pessoas chegam e vêm falar primeiro comigo, eu acho bem gratificante. Eu não abaixo minha cabeça, porque eu defendo os meus ideais. Esse negócio de mulher ficar só dentro de casa, não aprende nada.”

Essa trajetória de liderança reflete diretamente na vida de Bianca. A menina acompanha a rotina de viagens e o trabalho da mãe com admiração, entendendo desde cedo que o coco babaçu é a base da identidade e do sustento de seu povo. Enquanto participa de projetos de lazer e cidadania apoiados pela ActionAid ao lado da Assema, Bianca já demonstra uma consciência ambiental aguçada, e resume em palavras simples uma lição que muitos ainda não entendem: “eu acho que tem muita gente que derruba e queima a palmeira e eu não acho isso certo.”

A mãe de Bárbara, Dona Maria, também era quebradeira de coco e hoje ela mantém vivos a paixão e o cuidado pela floresta e transmite esses ideias para a filha Bianca, que já entende muito bem a importância de preservar os babaçuais / Foto: ActionAid

O vínculo de Bárbara com o babaçu vem de outra mulher: sua mãe, Maria dos Santos, que hoje já é falecida, mas deixou com sua filha um legado de cuidado com a floresta e com a sua história.

“Eu via a luta dela de quebrar coco. Minha mãe sofreu muito pra sustentar nós. E hoje eu falo para os meus filhos o tanto que minha mãe sofreu naquele tempo que o babaçu era 70 centavos e ela passava o dia todinho no mato.”

Hoje, embora ainda enfrentem desafios – principalmente o avanço predatório de empresas que destroem a mata ao redor da comunidade e colocam em risco centenas de mulheres como Bárbara, como apontado no relatório “Desmatamento Financiado: Quebradeiras de Coco na Mira do Agronegócio Global”, publicado no ano passado pela ActionAid – a realidade das quebradeiras é outra. O que não muda é o amor pela profissão, amor esse que Bárbara já transmite para a filha.

“Dizem que eu sou louca porque nunca larguei a profissão de quebradeira. Eu quebro coco porque eu gosto mesmo. Tenho orgulho de dizer ‘sou quebradeira’. Minha menina já quebra coco. Eu digo pra ela: “você vai ser uma doutora, mas uma doutora quebradeira de coco”.”

O trabalho da ActionAid, ao lado da Assema e de outras organizações parceiras, junto de quebradeiras de coco como Bárbara é o que fortalece uma rede que luta pela preservação do babaçu e pelo acesso a políticas públicas que reconhecem o valor do trabalho tradicional. Ao ver Bianca crescer com orgulho do trabalho da mãe e consciência de seus direitos, temos a certeza de que o apoio à organização das mulheres é o caminho para sociedades mais justas. 

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