Cidades Seguras para as Mulheres: 10 anos da iluminação que transformou Heliópolis
O direito de circular livremente e sem medo é uma das bases fundamentais da cidadania, mas, para muitas mulheres em contextos urbanos, a ocupação do espaço público ainda é atravessada pela insegurança. Em Heliópolis, a maior favela de São Paulo, essa realidade começou a ser reescrita há uma década. O que hoje parece um detalhe cotidiano — a luz branca do LED iluminando as vielas — foi, na verdade, uma conquista política histórica, impulsionada por mulheres que decidiram que o medo não ocuparia mais o lugar central de suas rotinas.
Essa transformação teve como pilar a campanha Cidades Seguras para as Mulheres, uma iniciativa global da ActionAid que, no Brasil, encontrou no Movimento de Mulheres de Heliópolis e na UNAS – que luta desde 1978 pelos direitos dos moradores de Heliópolis – o solo fértil para florescer. O foco da campanha não era apenas apontar a falta de infraestrutura, mas promover uma metodologia de participação: o mapeamento de vulnerabilidades feito pelas próprias moradoras. Ao entender que a escuridão era uma barreira para a educação, o trabalho e a autonomia, a ActionAid apoiou e facilitou os encontros que deram base teórica e política para a reivindicação do território.
O ápice dessa mobilização foi o emblemático "Lanternaço" em 2015. Munidas de velas e lanternas, as moradoras percorreram os pontos que haviam mapeado como críticos, denunciando a ausência do Estado e exigindo iluminação pública de qualidade. Mais do que um protesto, foi uma lição de monitoramento cidadão. A ActionAid atuou ao lado da UNAS para viabilizar que essas vozes chegassem às esferas de poder, resultando em um marco: Heliópolis tornou-se o primeiro bairro da América Latina a receber o sistema de iluminação LED em todas as suas ruas.
Mayara do Nascimento, 35, Coordenadora do Movimento de Mulheres, relembra que, no início, elas não imaginavam a proporção que a ação tomaria.
“Tivemos a ideia de andar com velas pelas ruas que mapeamos, denunciando a falta de iluminação, a ausência do Estado e reivindicando os direitos das mulheres. Não tínhamos noção da proporção que nossa ação tomaria. [Isso] nos ajudou a entender que juntas conseguimos promover mudanças concretas. Deu um ‘gás’ para a nossa luta.”
Dez anos depois, o impacto é visível não apenas na claridade das ruas, mas na confiança das gerações mais jovens. Se antes a falta de luz restringia o acesso de idosos a projetos de alfabetização e de mulheres a atividades noturnas, hoje a percepção de segurança permite que a comunidade pulse em horários que antes eram evitados.
No entanto, o legado desse projeto vai além das lâmpadas; ele reside no fortalecimento da liderança feminina. Para a ActionAid, apoiar o Movimento de Mulheres de Heliópolis é parte do nosso compromisso em viabilizar cidades mais justas e equitativas. Sabemos que a conquista da iluminação foi apenas o primeiro passo de uma vigilância constante pelo direito à cidade. Seguimos agindo em conjunto com nossas parceiras locais para garantir que o brilho conquistado em 2015 continue iluminando o caminho para novos direitos, provando que, quando as mulheres se organizam e ocupam o espaço público, toda a comunidade avança.
Notícias que podem te interessar
-
Como o empoderamento de um grupo de mulheres no Afeganistão mudou a vida de Hasina
-
Women By Women: conheça a história de Kleidianny, que levou luta das quebradeiras de coco babaçu para Londres
-
Mulheres quilombolas brasileiras são destaque na exposição fotográfica Women by Women, da ActionAid, em Londres
-
Com apoio da ActionAid, sobrevivente de tsunami lidera transformação em comunidade costeira da Indonésia