Logo ActionAid ActionAid

Notícias Agroecologia e Clima

Na tela e na luta: projeto TerritóRios fortalece mobilização para proteger a Chapada do Lagoão (MG)

Data: 21/10/2026 Por: Actionaid

Ver a própria história contada, reconhecer rostos conhecidos na tela e compartilhar memórias sobre o lugar onde se vive. Quando uma comunidade se reúne para assistir a um filme sobre sua trajetória, o audiovisual pode se transformar em algo maior do que um registro: um espaço de encontro, reconhecimento coletivo e fortalecimento da luta por direitos.

Foi com esse espírito que aproximadamente 120 pessoas se reuniram, no dia 30 de agosto, no Centro Cultural Luz da Lua, em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha (MG), para uma exibição especial do documentário O Lagoão é Nossa Mãe. Entre o público estavam lideranças quilombolas, moradores de comunidades tradicionais, representantes de organizações sociais e integrantes de movimentos em defesa do território.

A iniciativa contou com o apoio do projeto TerritóRios, da ActionAid, que atua no fortalecimento de comunidades historicamente impactadas pelo racismo ambiental, pelas desigualdades de gênero e pela crise climática no Brasil.

Além da exibição, a programação reuniu apresentações musicais, falas de lideranças e relatos sobre a história e a resistência das populações que vivem no entorno da Chapada do Lagoão.

Um território que guarda histórias de gerações

Localizado no nordeste de Minas Gerais, o Vale do Jequitinhonha é uma região de grande riqueza cultural e ambiental, onde vivem comunidades quilombolas, indígenas, chapadeiros e agricultores familiares.

É nesse cenário, entre os municípios de Araçuaí e Caraí, que se encontra a Chapada do Lagoão. Com cerca de 24 mil hectares e 139 nascentes, o território faz parte da história e dos modos de vida de inúmeras famílias.

O documentário apresenta essa relação, especialmente a partir das vivências da comunidade quilombola do Córrego Narciso do Meio. Ao longo de gerações, a Chapada contribuiu para a alimentação, a geração de renda e a sobrevivência das famílias.

Durante o encontro, uma das lideranças compartilhou a história de sua mãe, que criou seis filhos com o sustento obtido na Chapada. Uma rotina marcada por longos deslocamentos, pelo transporte de cestos na cabeça e pela condução de animais de carga até a cidade.

Eu não a considero como uma chapada. Eu a considero como uma mãe da comunidade do Córrego Narciso do Meio Quilombola e de muitas cidades da região do Vale, afirmou.

A fala ajuda a compreender o significado do título do filme. Chamar o Lagoão de “mãe” é reconhecer uma relação de afeto, cuidado e pertencimento construída ao longo de gerações, que conecta pessoas, histórias e saberes ancestrais.

O audiovisual como instrumento de mobilização e resistência

Ao levar essas histórias para a tela, O Lagoão é Nossa Mãe contribui para preservar a memória das comunidades, ampliar a visibilidade de suas reivindicações e fortalecer a mobilização em defesa da Chapada, ameaçada pelo avanço da mineração, pelas disputas por terras e pela pressão sobre os recursos hídricos.

A defesa do Lagoão não se limita à preservação ambiental. Envolve também a proteção de um patrimônio cultural, dos conhecimentos transmitidos entre gerações e do direito das comunidades de permanecerem em seus territórios, preservando seus modos de vida. Nesse contexto, o documentário valoriza as tradições e os saberes locais, denuncia ameaças socioambientais e contribui para a mobilização em defesa dos direitos quilombolas.

Ao serem compartilhadas coletivamente, essas narrativas ganham ainda outra dimensão: permitem que as pessoas se reconheçam como parte de uma história comum e percebam a força de suas experiências e da organização comunitária. Além da exibição em Araçuaí, o documentário foi apresentado em uma segunda sessão, no escritório da ActionAid. O encontro reuniu pessoas que participaram da produção, integrantes da equipe, pesquisadores e especialistas, proporcionando uma conversa sobre as histórias e realidades retratadas na obra.

Mais do que uma paisagem, o Lagoão é espaço de trabalho, sustento, aprendizagem, identidade e pertencimento. Preservá-lo significa proteger suas riquezas naturais, mas também as relações, os conhecimentos e os modos de vida das comunidades que dele fazem parte.

Afirma Carol Mendonça, consultora em Justiça Climática na ActionAid, que complementa:

"Fico feliz que o projeto TerritóRios tenha tornado o documentário possível. Isso reafirma o compromisso da ActionAid na busca por um futuro mais justo, sustentável e inclusivo, que depende também da proteção de territórios e da busca incansável por justiça socioambiental, que não existe sem o combate ao racismo ambiental existente em nosso país”.

“Viva nossa mãe!”

O documentário ainda está em processo de finalização e, após essa etapa, a previsão é que seja submetido a festivais de cinema, buscando ampliar o alcance das histórias e das reivindicações das comunidades retratadas. Por enquanto, o filme não está disponível para acesso público. Novas informações sobre sua circulação e possibilidades de exibição serão divulgadas oportunamente.

Voltar para todas as notícias

Notícias que podem te interessar